29 de abr de 2010

As Recordações de Jesus

Urbino 1483
Camerino 31 de janeiro — 21 de março de 1491


Endereçadas a
Frei Domênico de Leonessa


APRESENTAÇÃO

As recordações de Jesus são redigidas em forma epistolar, quase como uma carta de Jesus à sua dileta Camila. São declarações de amor, recordações autobiográficas, locuções proféticas, admoestações, reflexões pessoais. Revelações que a Santa teve antes de ingressar no claustro.

Colocou-as por escrito uma primeira vez, quando esteve em Urbino, para seu con-forto espiritual, poucos meses antes de sua “amarga” Profissão (1483). Transcreve-as depois, com melhor forma e caligrafia, seguindo uma forte inspiração divina, sete anos após a sua chegada a Camerino.

O fiel copista Antônio de Segóvia conclui assim: “Eu, Antônio espanhol, monge indigno, transcrevi o presente livro do manuscrito original, escrito pela Irmã Batista Varano, à qual Deus misericordioso uniu-me espiritualmente, com vínculo de santa cari-dade”.


CONFISSÃO

Saibas que as seguintes coisas, escrevi-as durante minha permanência em Urbino, quando era secular. Confesso minha culpa pela minha infidelidade e ingratidão.

Quando, em janeiro deste ano (1491) foi-me imposto transcrevê-las, resisti pois não sabia para qual finalidade. Agora entendo o porquê: devo fazer com que tu as conheças . Levanta-te, e lê, Reverendo Padre, come (lê) o fruto e obra de tuas mãos.


31-03-1491

AS RECORDAÇÕES DE JESUS

Deo Gratias! Amém!

Minha irmã , tu me disseste que desde o princípio de tua conversão Deus te pro-meteu uma grande tribulação, e temes esquecer a divina promessa na hora da dura prova, e ser tentada pelo desespero. Por isso, decidi escrever-te esta carta como um memorial. Trará algum refrigério à tua pena.
Antes de tudo, recorda que a tua vocação à vida religiosa não teve origem huma-na. Deus mesmo te chamou, contra a tua vontade. Ele mesmo te inspirou o desejo de dar-te ao bem e, logo depois, o desejo ardente do “mal sofrer” . Logo ficaste doente.

Recorda-te, ainda, que o próprio Deus te atraiu fortemente a meditar a sua Paixão. Quer que tu sigas fielmente por este caminho doloroso, o quanto a tua fragilidade possa suportar. Ele prenuncia as tuas penas enquanto estás em oração. Vês, filha minha, ao aproximar-se da minha Paixão, eu recorri à oração. Assim, peço-te, fazes também tu. Naquela hora, não podes fazer outra coisa que Nos agrade mais.

Como os homens do mundo ambicionam ver a sua amada vestida com uma veste, antes que com outra, assim Nós amamos ver-te vestida com o hábito da santa oração, mais do que com qualquer outro hábito virtuoso. A meu Pai agradou mostrar-me antecipadamente todas as penas que sofreria em minha Paixão, justamente enquanto estava em oração. Ali, despojei-me de toda a minha vontade humana e disse: “seja feita a tua vontade”.

Naquela minha sofrida oração, inflamei-me tanto de amor que pedi para morrer no máximo sofrimento, não para minha vantagem, mas somente por amor a meu Pai e para a salvação dos homens. Três vezes retornei à oração, para fazer compreender a ti e a todos aqueles que verdadeiramente querem me amar, que não basta orar uma só vez, mas é preciso perseverar longamente em oração.


E, com efeito, recorda-te de que, embora sendo Deus, vindo a esta terra somente para sofrer, todavia, pois era também verdadeiro homem, quando aproximou-se a hora da Paixão, fui constrangido a suplicar: “Se é possível, afasta...”

Assim, minha filhinha, digo-o a ti. Tu, tantas vezes pediste-me o dom do “mal so-frer”. Quando te der este dom e tu, por causa da agudeza das penas, me pedires: “Afasta, se é possível”, no caso de concluíres comigo: “Seja feita a tua vontade”, não me desagra-darás totalmente. Eu, como homem, fiz assim para dar exemplo e coragem a ti, aos ou-tros, a todos.

Se tu, submersa naquelas tuas penas, tiveres perseverança fiel na oração e o meu Pai for contigo tão bom como foi comigo, mostrando os sofrimentos que te reserva e tu te inflamares ao ponto de querer carregar — não para tua vantagem e mérito, mas só por amor de Deus e para a salvação dos homens, como eu o fiz, — tu serás tão semelhante a mim que o meu Pai será constrangido a amar-te quanto mesmo! (Assim parecia dizer-me).

Agradeça a Deus de todo o coração pelas penas que, no seu grande amor, preparou para ti. Lastima por aquelas que te foram poupadas por causa da tua ingratidão, fraqueza e pouco espírito(pouca virtude). Saibas que tão grande é o seu amor por ti que Ele quer dar-te todo mal para ter motivo de dar-te todo bem. Reconhece e agradece a Deus pois não mereces dom assim tão grande.

Ele quer conduzir-te pelo caminho da Paixão para fazer-te semelhante a mim, seu dileto Filho. Esta é a tua veste nupcial! Desta veste eu, teu verdadeiro esposo, fui sempre revestido. Saibas que, após o dom da boa vontade, esta é a mais preciosa graça que Deus te possa dar: o “mal sofrer”. Este “mal sofrer”, eu certamente poderia evitá-lo e tu tam-bém. Saibas, porém, que se o evitas, evitas também todo bem.

A escolha que fiz de sofrer somente por amor, deves fazê-la também tu, se queres ser semelhante a mim. Assim agradas a meu Pai. Vê, quando eu no Getsêmani saí da oração, assim inflamado de amor, eu mesmo fui ao encontro de meus inimigos. Faze o mesmo também tu; vás ao encontro deles, não temas. Eu fui traído com um beijo por meu dileto discípulo. Assim tu, rejubila-te se és enganada e afligida por quem te quer bem.

Recorda-te que te ensinei cinco coisas:
1. Quando és ofendida, sofre mais pela ofensa feita a Deus do que pelas tuas penas.
2. De todo o coração, pede a mim pelo ofensor; invoca perdão para ele. Pede-me de libertá-lo das penas que merece como se quisesse que libertasse o teu olho ou algum outro dos teus membros que sofre. O teu próximo é teu membro, teu olho.
3. Reconhece que tu és muito mais obrigada com aqueles que te fazem mal que a-queles que te fazem bem. Aqueles purificam a tua alma, a fazem bela, graciosa, agradá-vel a minha presença.
4. Considera quanto é grande o meu amor. Embora tu sejas minha inimiga mortal por causa das culpas cometidas, todavia eu tenho como feita a mim cada injúria feita a ti. Por isso quero que sofras antes de tudo pelas minhas injúrias. Com este ódio quero que tu odeies teus inimigos: que tenhas como feito a ti todo mal feito a eles.
5. Alegra-te de receber somente parte daquilo que mereces, pensa que tudo é per-mitido por mim, para o teu bem. Não imputes a quem te faz sofrer algum pecado.

Vê: recebido o beijo da traição, perguntei à turba: “A quem procurais?” E disse: “Sou eu!” Foi tão forte a potência de minha palavra que os soldados caíram por terra. Por causa daquela mesma potência permiti que me arrastassem; isto é pela unidade da minha vontade humana com aquela de Deus: “Faze-se a tua vontade”. Por causa disso puderam reconhecer que a liberdade deles sobre mim era concedida pela potência divina.

Assim, se tu deres esta tua vontade livremente a Deus dizendo: “ Fiat voluntas tua!”, a tua alma será tão semelhante a mim pela união a Divina Vontade, que os demônios fugirão. Quando for concedida a eles liberdade de atormentar-te, não prevalecerão sobre ti e nem mesmo as criaturas. Quando fores atormentada pelos demônios e pelas criaturas, saibas que receberam este poder de Deus. Assim o Pai fez comigo, seu verdadeiro Filho.

Fui abandonado por todos. Quando também tu fores abandonada, alegra-te e agradece-me. Eu fui apresentado a diversos juizes com escárnios e tormentos por aquele povo que cumulava de privilégios. Quando receberes injúrias, desprezos, e repreensões, alegra-te e agradece-me. Eu estive nu sobre a cruz. Quero que também tu estejas nua sobre a cruz da santa Religião, despojada de todo amor! Eu fui pregado com três pregos, com três pregos quero que também tu sejas pregada na cruz: pobreza, obediência, castidade”.

Muitas outras coisas disse-me Jesus, das quais agora não me recordo .

Porém, Camila, quero recordar-te isto: quando rezavas e o teu Deus rezava contigo, tão doce e impetuosamente, repetindo-te: eu fiz assim e quero que também tu fazes as-sim... a tua alma transbordava de amor e tu não podias conter-te mais. Ouvias mas não compreendias. Então o meu doce Deus moderou-se e disse: “Muitas outras coisas seme-lhantes quero dizer-te, mas a tua alma ainda não é capaz de contê-las”. Então tu, minha alma, compreendeste, não por palavras, mas por luz intelectual, que Deus tornou-te ca-paz de receber o “licor” que ele queria derramar em ti com a enfermidade e a tribulação.


Recorda-te que demonstrei-te grande sinal de amor, mais quando mandei-te sofrimentos, do que quando trazia-te apertada nos meus dulcíssimos braços. Quando fores oprimida pelas penas, recorda-te quantas vezes te chamei: minha filha, esposa, irmã, tão docemente que por causa disso desfalecias de amor. Recorda-te, minha alma pobrezinha, que Deus te deu tanto de si, que tu muitas vezes pela grande doçura, me repetias: “Não mais, Senhor, não mais”, e por humildade, fugias.

Para aniquilar a tua grande soberba, Deus te declarou — recorda-te —: “não foram as tuas boas obras, mas somente o imenso amor que tenho por ti que me leva a doar-te tantos e doces sinais”. Citou-me este exemplo: “Quando um médico vê que uma doença é perigosa e mortal, deixando de lado os outros, recorre ao extremo remédio, ao mais potente. Assim Deus, médico perfeito, fez contigo. Não por teu mérito, mas para libertar-te de tua grave e perigosa enfermidade, somente por seu amor.
Recorda-te que para tornar-te humilde, ele mostrou-te claramente que as doçuras e suavidades espirituais não se ganham por poder humano; mas Deus mesmo as comunica somente por sua infinita bondade quando, como e a quem lhe agrada. Somente a sua Sabedoria conhece quando e a quem tais dons são úteis. Tu és soberba, por isso Deus quis comunicar-se a ti desde o início. De fato, teu único capital era: muitos pecados e males. Ora, se tu tivesses já muitas riquezas de boas obras, talvez caísse no laço da so-berba.

Tais dons talvez fossem prêmio pelas tuas boas obras e pelo “mal sofrer” suportado por amor.
Guarda por certo que me deverá ser muito e muito obrigada, sobretudo quando tive-res evitado muitos pecados, operado muitos bens e suportado muitas dores e tribulações. Grande dom de Deus é não pecar, grandíssimo poder fazer o bem, máximo e em grau superlativo sofrer o mal. Nenhuma destas coisas poderias fazer sem a minha graça, pois “sem mim nada podes fazer”.
Tu o sabes, provaste-o por experiência: farias todo mal se não te sustentasse. Não o-perarias bem algum, se minha doce mão não te guiasse. Nenhuma pena saberias suportar sem pecar, se Deus, no seu amor, não te doasse força e vontade de sustê-la. Sê infinita-mente grata a ele que te doa esta luz.
Recorda-te! Se tu não devesses pecar mais, se tu, sozinha, fizesse mais penitência do que fizeram todos os santos, se derramasses tantas lágrimas que formassem um mar, se também sofresse todas as penas que se possam sofrer, tudo isso não seria suficiente para agradecer-me pelo menor dom que te fiz. Deus, por sua bondade, fez-te claramente com-preender.
Pensa. Como poderás reparar tuas infinitas culpas? Humilha-te e dize: “Meu Senhor, vida e doçura do meu coração. Eu não poderei nunca agradecer suficientemente nem pela graça de fazer o bem, nem pelo “mal sofrer” que me dás. Como poderei reparar minhas inúmeras culpas e iniquidades cometidas contra ti? Faze-me ao menos esta graça, ó meu Jesus! Que eu escreva como se houvesse feito todo mal e nunca operado nenhum bem. Assim o foi, na verdade, e assim seria. Faze-me a graça de que este pouco tempo que me resta para viver o gaste todo no teu amor, na tua santa Vontade. Após a minha morte envia-me onde lhe trará maior honra, mesmo que seja no inferno. Estarei contentíssima . Quero que a tua glória seja a minha única glória”.
Recorda-te das promessas feitas, o modo e a Quem! Não as escrevo. Tu as conheces! Recorda-te de quanto te foi prometido, então nada te parecerá difícil. “Tudo passa rápi-do”. “Após a dor, vem a alegria”. “Após a tempestade, vem a calmaria” . Este será para ti o tempo favorável, o dia da Salvação.
Recorda-te com quanto ardor me pedias: “Vem logo, forte, meu Senhor. Não posso mais ter paciência. Muito demoras em mandar-me as penas que me prometeste. Quando me conduzirás aos gordos pastos do “mal sofrer” aonde pastam as tuas ovelhinhas predi-letas?”
Quando fores pregada à cruz que Deus te quer dar, recorda-te: Não digas mais “Ó Deus, porque me abandonaste?”. Recorda-te. Deus Pai proibiu-te de dizê-lo. Que o saibas. E saibas também o motivo.
Recorda-te de tudo o que te disse. Quanto mais te parecer que tenha te abandonado, mais estarei perto de ti. Quero ter contigo o mesmo comportamento que meu Pai teve comigo. Permitirei que sofras todas as penas que a tua fraqueza puder suportar. Deus te prepara uma grande cruz: engano, tentação, abandono, não sei . Não te desesperes.
Nada desagrada mais ao senhor que o desespero. Sê humilde, suspeita de ti. Até agora viveste numa grande confiança com Deus, talvez com muita presunção. Agora deves virar a página. O quanto até agora te sentiste amada por Deus na sua graça, outro tanto te sentirás objeto de ódio, de desgosto. Fica forte e constante, pois ao vencedor se dará a coroa. Recorda-te da sincera, convicta oferta que fizeste a Deus.
Quiseste servir a ele, não para evitar o inferno e merecer o Paraíso, mas por puro a-mor, porque ele é o Senhor que merece ser servido, amado, louvado por cada criatura. Faze assim. Ama-o, serve-o com todo o ardor de tua alma; até a morte! Mesmo se tivesse a certeza de ser uma condenada.
Recorda-te , Camila, que Deus não te revelou estas coisas para a tua santa vida. A primeira vez que te foram anunciadas já fazem cerca de cinco anos , tu não eras outra coisa que um diabo, preso pelos laços do demônio, loba faminta do sangue das almas resgatadas com o precioso sangue de Cristo, arca de soberba, plena de ambições, sensual, mundana! Não escreverei as tuas obras. Calo-me.
Esta era a tua santa vida antes que Deus te chamasse aos seus inefáveis abraços. Re-corda-te sempre disso. Pensa em sua infinita bondade e na tua miséria e maldade. Humi-lha-te, envergonha-te. Tão pecadora, presumes de estar em seus doces braços como sua cara esposa. Logo tu, adúltera meretriz!
Aquilo que mais me dói e me constrange a chorar sobre minha miserável alma é isto: após tantos doces abraços, tantas dulcíssimas palavras... quantas vezes Deus te chamou esposa, minha filha, com infinita doçura! Após tantos sinais de amor recebidos! Não só palavras, mas experiência sensível. Após ter sentido o teu Senhor, tê-lo provado: amável, desejável, doce, gracioso, suave sobre todas as coisas, mais e mais vezes voltaste como “besta canina” ao vômito. Isto é, à tua vida de antes; e pior.
Permanece na humildade, em santo temor. Não digas mais: “Deus, protege-me deste perigo, que daquele outro proteger-me-ei”. O Senhor te mostrou claramente que basta uma formiga para quebrar-te o pescoço se ele não cuidasse de ti.
Não mais confies muito em ti: mesmo que recebesses tanta graça que fizesses mila-gres todo o dia. Recorda-te daquilo que Jesus te fez compreender bem. Há maior mérito quando estás diante de sua majestade sem lágrimas e devoções sensíveis do que quando estamos com muito pranto e gostos espirituais. Então tu reparas parte de teu débito. Mas quando estamos com muitas lágrimas, partes com um aumento do débito.
Aprende, pois, a ser forte nos dias de aridez e cansaço. Recorda-te que Deus tira de ti suas delícias, não por ódio, mas por amor. Declarou-te muitas vezes que não quer dar-te o Paraíso neste mundo. Para tua consolação, Camila, ainda quero recordar-te muitas coisas. Deus não me permite escreve-las agora.
*****
Com grandíssima violência escrevi o que está acima. Decidi escrevê-las há quase um ano, mas nunca pude fazê-lo. Faço-o agora com imensa repugnância. Acredito, porém, que se Deus te dá a graça, este escrito, se o ruminas bem, te dará grande alívio nas tuas penas. Quero porém acrescentar um particular: recorda-te que Deus te quer só, só, nua sobre o leito da cruz. Naquele “sacratíssimo leito” Ele quer consumar contigo o santo, espiritual matrimônio e esponsalício de amor e de dor. Como a dileta Esposa do Cântico, direi: “O meu amado é meu e eu sou dele, que se sacia entre os lírios”.
Os lírios são os muitos sofrimentos suportados, não para minha vantagem e espera do prêmio, mas por puro Amor a Ele. Este seu Amor, espero saborear antes de morrer, como muitas vezes me prometeu. A este divino Amor seja o louvor e glória nos séculos dos séculos. Amém.
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Estas revelações, tive-as quando era ainda secular, após haver prometido a Deus firme e irrevogavelmente querer servi-lo em perpétua clausura, na Ordem da gloriosa Virgem Santa Clara.
Escrevi-as quando fui a Urbino, cinco meses antes da minha Profissão , sobre uma folha de papel comum, com escrita grosseira. Agora, após sete anos que estou neste mos-teiro de Camerino , sinto-me fortemente impulsionada por uma força interior, a trans-crevê-las em papel melhor, em bom estilo e caligrafia mais cuidada. Se é inspiração divina ou tentação do diabo, não o sei.
A este impulso, resisti por muito tempo, pois eu mesma não sei porque deva escrever. Não vejo utilidade alguma. Deus sabe quanta repugnância e cansaço me custa esta transcrição. Muitas e muitas vezes após tê-la iniciado, estive a ponto de suspendê-la. Parecia-me uma carta retorcida, não motivada, toda sombra e confusão. E a interrompia. Depois, um forte impulso me constrangia a retomá-la. Por estes contrates, eu a tive como inspiração de Deus, não do demônio.
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Transcrita em 31 de janeiro de 1491, no nosso sagrado mosteiro de Santa Maria No-va, seis meses após a morte do meu glorioso santo Padre Frei Pedro de Mogliano. Nove anos depois que vesti o sagrado hábito de Santa Clara. Louvor a Deus. Amém.

APÊNDICE : VISÕES DE SANTA CATARINA DE BOLONHA
Meu dileto Pai , não posso deixar de narrar-te aquilo que aconteceu dezenove anos depois de meu retorno a Camerino. Ouvindo ler muitas vezes no refeitório o livro da Bem-aventurada Catarina de Bolonha, fui tomada por grande devoção por aquela nobre santa. Admirei-a, amei-a, reli muitas vezes o seu livro.
Considerava o grande amor que esta minha irmã tinha por Deus e pelo próximo; a sua grande humildade, pobreza e obediência. Com afetuosa confiança comecei a invocá-la para que pedisse a Deus por mim: que Ele quisesse dar-me ao menos alguma parcela das graças e virtudes, das quais lhe havia feito dom; virtudes que tanto agradavam a Deus.
Uma vez, perto da festa de São João Batista, em 1512, estava em oração em minha cela. Suplicava a esta minha santa amiga que pedisse a Deus por mim. Enquanto assim rezava, apareceu-me — não dormia, estava bem desperta — uma monja vestida de marrom com um véu preto na cabeça. Belíssima, resplendente de luz, o rosto sorridente. A afabilidade dos seus modos, a doçura de sua voz mostravam claramente que era um espírito bem-aventurado.
Mal a vi, perturbei-me um pouco. Logo fiz o sinal da cruz. Depois pedi-lhe que dis-sesse quem era. Respondeu-me muito graciosamente: “Sou a Bem-aventurada Catarina de Bolonha”. E eu: “Se és aquela que dizes ser, pede a Deus por mim. Que na sua infinita Bondade queira me conceder uma parcela daquelas virtudes que tantas vezes lhe pedi”. Benignamente respondeu-me: “Tem fé! Deus te concederá estas graças”.
Disse-lhe que a minha miséria era tão grande; reconhecia-me indigna de todas as graças. E ela: “Quanto mais reconheceres a tua miséria, tanto mais estarás apta a receber graças”. E continuou: “Tudo aquilo que fazes por amor de Deus, faze-o com grande fervor de espírito e intensidade de amor, especialmente a obediência, que é muito agradável a Deus quando é feita por seu amor”. Depois recomendou-me não me preocupar por tolices; sempre ter a mente fixa nas coisas celestes. Recomendou-me que, durante o Ofício Divino tivesse sempre atenção e reverência. Deveria pensar de estar entre Anjos a louvar Deus. Enquanto falava, o seu rosto irradiava alegria.
Depois, pedi a ela que rogasse a Deus pelo mundo tão atribulado. Quando lhe disse isso, o seu rosto se entristeceu e explodiu em copioso pranto. Via cair daqueles suaves olhos numerosas lágrimas. Chorou longamente e eu com ela. Com grande tristeza, disse-me: “É necessário que venham muitas tribulações, por causa dos muitos pecados que se cometem no mundo”. E depois desapareceu.
Durante todo aquele dia fui inundada de alegria. Parecia-me estar no Céu. Quando entrei no Coro para a celebração das Vésperas, olhei em direção ao Santíssimo Sacra-mento. Pareceu-me que saísse dali um dardo que me feriu o coração do amor de Deus.
Na solenidade da Natividade de Maria Santíssima, a Bem-aventurada apareceu-me uma segunda vez. Disse-me que, quando nasceu Nossa Senhora, os Anjos fizeram grande festa e anunciaram que aquela menina seria o tabernáculo do Filho de Deus. Exultaram de imensa alegria muitos santos do Antigo Testamento. Falava-me coisas agradáveis, que deixavam-me no coração um sabor suavíssimo, como se houvesse me falado um Anjo. Esteve comigo por uma hora, depois desapareceu. Deixou-me muito consolada.
Enquanto se afastava, supliquei-lhe muitas vezes que rogasse pelo mundo tão atribu-lado. Quando lhe dizia isto, o seu rosto sempre ficava triste, se lhe falava de outras coisas, respondia-me com o rosto resplendente e alegre. Sempre me deixava muito consolada.
Uma vez, falava-me da glória da vida eterna. Perguntei-lhe: “Se tanta alegria me dá falar com um espírito bem-aventurado, o que será então a glória da vida eterna?” Res-pondeu-me: “Sem comparação, imensamente maior. Aquilo que tu saboreias agora é uma mínima parcela da vida eterna”.
Perguntei-lhe se, enquanto estava em colóquio comigo, estava privada daquela glória e consolação. Respondeu-me que não, e explicou: “Enquanto estou contigo, gozo a glória da vida eterna, porque sempre tenho o gozo de Deus e sempre contemplo a sua divinda-de. Saboreio esta felicidade suprema, embora estando em tua companhia”.
Os Anjos, delegados custódios dos homens, não os abandonam jamais. Se as almas a eles confiadas vão ao Purgatório, os Anjos da Guarda seguidamente visitam-nas e confortam-nas, acompanham-nas até a sua entrada na glória dos Bem-aventurados. Os Anjos sempre amam com amor particular as almas das quais foram custódios na terra. A Bem-aventurada, além disso, assegurou-me que Deus se comprazia em que eu estivesse em oração todas as vezes que tivesse possibilidade.
A Bem-aventurada Catarina de Bolonha visitou-me ainda e consolou-me no dia da Visitação de Maria Santíssima, na sua oitava, na Natividade, na festa da Trindade e de alguns santos. Tantas outras coisas belas esta alma Bem-aventurada disse-me sobre Nossa Senhora...

Um comentário:

  1. carissimas Irmãs Clarissas, louvados sejam Jesus e Maria! Belo trabalho missionário em publicarem tamanho presente para nós extra-muros e onde podemos saborear nestes textos desta irmã santa de vcs, agora para o mundo todo de uma maneira oficial... onde podemos nós também saborear tamanho manjar do céu... Fico feliz por receber tamanho presente e claro irei divulgá-lo também. Santa esta para os nossos tempos, onde se sofre muito com as depressões da vida moderna e ausência do significado feliz do crucificado que está sendo banido de todos os lugares. Que sta Camila Varane nos motive a nos aproximar mais e mais do intimidade do crucificado e sermos libertos dos males do tempo presente, onde podemos perder a graça tão grande da eternidade feliz com Deus. ir. josé carlos do m. jesus, isg passos, mg

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