29 de abr de 2010

Instruções ao Discípulo

 
Tradução e digitação:
Irmã Maria Renata do Bom Pastor, osc
Irmã Sandra Maria, osc
1997


Do original italiano:
ISTRUZIONI AL DISCEPOLO
Beata Camilla Battista da Varano
Edizioni Giovinezza, Roma.
 



Santa Camila Batista Varani nasce em Camerino, a 9 de abril de 1458. Os Varani regem o Senhorio de Camerino e estão, naquele tempo, em seu máximo esplendor. A pequena Camila é um tipo por demais voluntarioso e encontra-se muito bem na corte principesca, toda perpassada pelo espírito do Renascimento. Ela mesma diz em sua Autobiografia: “ Exceto o breve espaço que dava à oração, o resto do tempo o passava a tocar, cantar, dançar, passear, em vaidades e outras coisas juvenis e mundanas. As coisas devotas causavam-me tanto fastio, os frades e as irmãs, que me desgostava até mesmo vê-los; fazia gozação de quem lia livros espirituais e colocava todo o meu cuidado em ornamentar-me e em ler coisas mundanas”.
Entretanto, entre os oito e os dez anos, durante uma pregação quaresmal, foi de tal modo atraída pelos sofrimentos de Jesus, que prometeu, por amor dele, toda sexta-feira derramar “uma lagrimazinha”. Naturalmente, voluntariosa como era, manteve a promessa; antes, da meditação da Paixão do Senhor maturou lentamente a sua total conversão e o propósito de entrar no mosteiro; conversão e propósito que lhe custaram ásperas lutas interiores e exteriores, ao ponto de ficar doente pelo esgotamento.
Teria desejado entrar entre as Clarissas de Urbino já na idade de dezoito anos, mas ali foi vestida com o hábito clariano somente nos primeiros meses de 1482,  superada finalmente a oposição do pai, que sonhava bem outras coisas para aquela filha. Havia chegado aos seus vinte e três anos de idade, profundamente introduzida na vida espiritual, favorecida de dons extraordinários.
Júlio César, Senhor de Camerino e pai de nossa santa, não se resigna em ter a filha distante e prepara-lhe um mosteiro na própria Camerino. Irmã Batista, com outras oito co-irmãs, provindas de Urbino, ali chegam no domingo, 4 de janeiro de 1484. Processionalmente, com os pés descalços, atravessam a cidade coberta de neve, e chegam ao mosteiro que será chamado de Santa Clara (pertencia antes aos olivetanos).
A Santa, que se torna periodicamente abadessa, vai crescendo no seu amor pelo Esposo Crucificado que continua a favorecê-la com dons extraordinários, e que pede lhe também a suprema purificação do coração, a “noite espiritual”, com uma terrível prova que a atormenta entre o ano de 1448 e 1493. Trata-se de um fenômeno que quase não pode faltar para quem é chamado aos caminhos mais altos do espírito.
Reencontrado o dom da serenidade e chegada então a plenitude da maturidade espiritual, escreve as “Instruções  ao Discípulo”, que este fascículo recolhe. Estamos próximos ao ano de 1501.
Entre maio e junho de 1502, Irmã Batista deve tomar o caminho do exílio e refugiar-se em Atri, no Abruzzo (Reino de Nápoles). A soldadesca de Valentino, de fato, se aproximava também de Camerino, prometendo aquilo que havia feito em outros lugares. César Bórgia, o Valentino de fato, ocupa a cidade e procura fazer desaparecer os Senhores que a governam ou que poderão governá-la. Assim são brutalmente assassinados o pai e três irmãos da nossa Santa. único sobrevivente, não se sabe como, permanece João Maria.
Ocorrendo quase fulminantemente o ocaso do astro dos Bórgia, João Maria  é reconhecido Senhor de Camerino pelo Papa Júlio II; Irmã Batista, em 1503, pôde retornar ao seu mosteiro. Verdadeiramente, não é difícil imaginar que penas sofreu pela tragédia de sua família.
Do mosteiro de Camerino sairá outras duas vezes: para a fundação do mosteiro de Fermo e para a coleta na comuna de São Severino das Marcas. Duas saídas breves que intervalam a última parte da sua vida, consumida na penitência, na contemplação e também em escrever. Encontra o Esposo Crucificado em 31 de maio de 1524.
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As “Instruções ao Discípulo”, como já foi falado acima, foram escritas por volta de 1501. O gabaritado Giorgio Papàsogli, em sua biografia da Santa (“Bem-aventurada Camila Batista Varano”, Mosteiro Santa Clara, Camerino), define as “Instruções” como “obra breve e densa, mas clara e concebida de modo original; isto é, aparentemente como uma série de preceitos e conselhos que uma ignorada mãe espiritual dá a um discípulo, também ignorado”.
Presume-se comumente que o destinatário das “Instruções” seja o Frade Menor Giovani de Fano, pai espiritual da Santa. Por detrás da repetida oração deste último, a “filha” torna-se mãe espiritual e assim, não tem nenhuma dificuldade em contar-lhe os segredos do próprio coração. “Para alegrar aquela alma que é cara ao Senhor, — diz Papàsogli na citada biografia — não hesita em expor todas as próprias preciosidades, e faz, em certos momentos, o gesto de tomá-las entre os dedos, expô-las em luz adequada a mostrar os seus brilhos. Isto servirá ao discípulo, e por isso à glória de Deus, e  por isso Irmã Batista se sente paga e satisfeita”.
São dez as instruções ou conselhos que a Santa oferece ao discípulo: uma espécie de decálogo. A autora é acessível às citações bíblicas explicitas ou implícitas, mas não faz fausto de erudição. É verdadeiramente uma mãe que abre o próprio coração ao discípulo porque lhe quer bem, isto é, porque quer seu progresso espiritual. Alguma vez, entretanto, não lhe falta a queixa, tanto mais forte quanto mais se pensa que vem do coração de uma mãe solícita.
A quem está habituado, como às vezes hoje acontece, a leituras assim chamadas espirituais, seguidamente difíceis para o cérebro, áridas para o coração e ainda mais para a vontade, pode acontecer que as “Instruções” dêem a impressão de ser um alimento já digerido e por isso pouco substancioso. Que seja alimento digerido, é acima de tudo e infelizmente  verdade. Que seja pouco substancioso não é verdade, de modo algum. Não exala a soberba intelectual, nem os vazios e danosos sentimentalismos. Mas se alguém possui verdadeira vontade de amar sinceramente Deus e de entrar em intimidade com Ele, encontra nas “Instruções” um alimento muito rico de calorias espirituais. De outra parte, a própria experiência da Autora nos dá confirmação. Este seu escrito, tão autobiográfico, no-la mostra “alta e humilde, — para citar ainda um última vez Papàsogli — pacificada, embora ativa, na sua incessante subida em direção à perfeição”.
As “Instruções ao discípulo” foram escritas por Santa Camila Batista no dialeto marquesino do tempo. A edição aqui publicada é, ao invés, em italiano corrente, obra de amor e paciência de uma Clarissa do mosteiro de Camerino. É também obra de não pouca inteligência, porque nos parece que o estilo não somente se adapta muito bem à natureza da obra de Camila, mas que também conserva não pouco da simplicidade e da frescura da edição em dialeto.
Frei Epifânio Urbani, ofm
 
Ó Senhor nosso, Jesus Cristo, que conheces os corações de teus filhos, olha a devoção desta alma e dá a mim, pecadora, a tua graça, para que por minha boca  se cumpra a tua vontade. Pela honra da tua divina majestade e vantagem espiritual de meu devotadíssimo filho.
Muitas e muitas vezes pediste-me, alma amada por Deus, que eu te escrevesse, para tua consolação, qualquer coisa da vida espiritual e das admiráveis graças que recebeu de Deus aquela religiosa, pela qual tens tanta devoção e reverência. Parece-te que ela seja quase um deus na terra e que ele opere em ti a tua santificação por meio dela.
Porque te amo com todo o coração, quero satisfazer, com a divina graça, ao menos em parte este teu piedoso, santo desejo. De fato, aquela religiosa me confiava todos os seus segredos. Isto sei com certeza: não procura por nada a estima dos homens, mas a Deus somente quer agradar.
Peço-te, por isso, que este meu escrito permaneça um segredo entre mim e ti. Se o fizeres de outro modo, dar-lhe-ia grande desprazer. Antes de penetrar na imensidão, aonde sinto que tuas orações me levam, quero dar-te algumas santas recordações. Se as honrares, feliz de ti!
Eu quero que tu, alma devota, sejas amiga da santa oração. Por esta porta aquela religiosa entrou no conhecimento de Deus e de si mesma. A oração a introduziu na amizade e na familiaridade do grande onipotente Deus. Ele revelou-lhe os seus segredos. Deu paz e tranqüilidade ao seu espírito. Doou-lhe a amizade dos anjos, uma fé indestrutível na Trindade, a firme, certa esperança da sua salvação, um forte, constante amor de Deus e ardente desejo da salvação do próximo.
A oração tanto inebriou aquela religiosa, ao ponto dela poder dizer com o Apóstolo Paulo: “Mihi mundus crucifixus est et ego mundo” isto é: o mundo me desgosta tanto que parece-me um inferno temporário. Não quero agradar-lhe de modo algum! Sei que aquela religiosa sente grande alegria quando o mundo tem dela má opinião e é tida acima de tudo como afastada de Deus do que a Ele vizinha. E isto pela retidão do seu coração humilhado.
Aquela alma fundamentou a sua oração sobre a Paixão de Jesus. Quero que tu também faças o mesmo, para poder dizer com ela: “Todos os bens me vieram com ela (a Paixão )”(Sb 7,11). Outra coisa não te digo desta santa oração, porque já te falei muito. Faze-a, faze-a. Tu me compreendes. Quando não puderes ceifar, colhas à força. Quando não podes rezar com a mente, reza com a boca. Isto te baste (Dt 3,26).
Quero que tu, alma bendita no Senhor, imites a tua mãe nesta virtude que Deus lhe concedeu. Saibas procurar e ver o lado bom em tudo aquilo que ouves e vês. Colhe a rosa e deixa ficar os espinhos!
Se mesmo cem motivos e mil ensinamentos das Escrituras te autorizassem a julgar mal e uma só razão tivesses para pensar bem, deves ater-te a esta somente, e deixa  perder as cem e mil. Assim sempre agiu aquela que tu amas tanto em Deus. A nenhum propósito o teu coração foi mais tenazmente fiel do que a este. Por nenhum motivo pôde ela jamais persuadir-se a pensar mal do próximo. Somente diante da evidência dobrou-se, com grande dificuldade e depois de uma experiência muito longa. Esta retidão lhe dá uma grande, confiante ousadia diante do Altíssimo. Ele não rejeita mais as suas súplicas: “A luz brilha para o justo, alegria para os retos corações” (Sl 96). Se o teu coração for bom, se agires sempre com reta intenção diante de Deus e dos homens, em breve tempo conquistarás dois suavíssimos frutos: luz divina no intelecto e alegria angelical em teu reto coração. Alegria que o mundo e todas as coisas criadas jamais poderão dar.
Estes são os operadores de paz, que em sua contemplação possuirão a terra da humanidade de Cristo pregada na cruz. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt5,8), mesmo na presente vida com a luz do intelecto. Assim quero que tu sejas, alma bendita, a fim de que tu possas eternamente gozar Deus no céu com a tua dileta mãe espiritual. Esta tua mãe, no deserto da presente vida, entre inumeráveis dragões, caminha, pela graça do Espírito Santo, por esta seguríssima via: de tudo tirar sempre o bem, também do mal inegável. Acredita-me, que te amo com sinceridade de coração!
Muitos e muitas, pelo pensar e julgar temerário, caem pois na murmuração. Os servos e as servas de Deus perdem assim tantas graças, tantos dons divinos, quantos nem mesmo podem imaginar. Foge, foge desta peste infernal, foge deste vício! De novo insisto: foge dele com prontidão!
Acredita-me: bem diversos são os juízos de Deus, daqueles dos homens. Esta tua mãe, tantas vezes e em tantas ocasiões, foi julgada ao contrário. Deus o permitiu para o seu bem, para que nela fosse conservado puríssimo o tesouro da Graça. Aprendeu assim, as suas custas, que os juízos dos homens são falazes.
Portanto tu, alma devota da Paixão de Jesus Cristo, faze como a tua mãe. Repousará em ti o Espírito da Sabedoria. Quero ainda, alma bendita, que tu sigas este meu conselho: serve Deus não como servo, por temor das penas e dos suplícios eternos, não como pecadora arrependida para obter o prêmio, mas como verdadeira filha. Rende a Deus amor por amor, pena por pena, sangue por sangue, morte por morte.
Estes são os caminhos breves e seguros, escondidos aos olhos dos homens, mas bem notáveis e aceitos por Deus. Somente Ele tudo vê e conhece. Antes que a alma comece a caminhar, ainda antes que ela bata à porta da misericórdia de Deus, Ele lhe abre o tesouro da eterna Sabedoria. Antes que pergunte, lhe é concedido mais do que quanto deseja. Ela nem mesmo saberia pedir aquilo que Deus lhe oferece na sua infinita, incompreensível Bondade.
O amorosíssimo Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado é infinitamente largo, generoso, liberalíssimo. Ama muito e se compadece daqueles que a Ele se conformam. Torna os seus corações liberais, magnânimos, larguíssimos, a fim de que neles possa comodissimamente passear o Rei da Vida Eterna. Em um coração impuro, miserável, vil, jamais habita e jamais habitará Deus, “grande e excelso entre todos os deuses” (Sl 2,5).
Deixa, deixa, alma amantíssima, este mundo falso e enganador, não por temor do inferno como servo, não por esperança de prêmio como a pecadora arrependida, mas como filha e esposa amante, por amor do teu crucificado Jesus. Com grande dileção estreita-o a ti, com os braços do afeto do teu coração. Assim fez a tua devota mãe. Sofreu por não ser e não ter mais, para poder deixar muito mais por amor de seu Jesus crucificado; tão ardentemente o amava, com o coração puro e intenção perfeita.
Ama os teus inimigos. Faze o bem a todos aqueles que te odeiam. “Sê operador de paz para aqueles que odeiam a paz” (Sl 119). Na Vida Religiosa  Deus jamais deixa de vir a quem o ama com espiritualíssimo amor. De um modo ou de outro faz a alma ganhar tesouros infinitos.
Sabes, alma bendita, que aquela monja foi dotada por Deus com muitas graças espirituais. Jesus lhe havia dado singulares sinais de benevolência e de amor. Ela sempre esteve sedenta desta graça: amar com todo o coração quem lhe faz mal, muito mais do que quem lhe faz o bem.
Esta serva de Jesus, nas suas orações não se cansava nunca de repetir ao Senhor: “Ó meu clementíssimo Deus, se tu me revelasses todos os segredos do teu sacratíssimo coração e todo dia  me mostrasses todas as hierarquias angélicas, se todo dia eu ressuscitasse os mortos, não acreditaria por isso que tu me amas com infinito amor. Mas quando sentir de ter obtido a graça de um perfeito amor, isto é, de fazer o bem a quem me faz o mal, de dizer bem e louvar a quem sei que fala mal de mim e sem razão me critica, então somente, por este sinal infalível, meu Pai clementíssimo, acreditarei de ser tua verdadeira filha. Somente então serei conforme ao teu diletíssimo Filho Jesus Cristo crucificado, que é o único bem da minha alma, conforme a Ele, o Pai, que estando na cruz pediu-te pelos seus crucificadores”.
Agora, a tal serva de Jesus parece haver obtido esta graça. Em sua alma não sente nenhum ressentimento por qualquer injustiça que lhe foi dita ou feita. Se ela recebeu injúrias graves e sem razão, não o escrevo a ti. Deus o sabe e ela também. Experimenta, porém, grandíssimo prazer em fazer e dizer coisas agradáveis aos seus detratores. Somente a faz sofrer o dano daquelas almas mesquinhas, e com todo o coração pede a Deus que não lhes impute como pecado. As vezes recita um Pai-nosso e uma Ave-Maria  a mais neste santo jogo da grande perfeição.
Assim quero que faças tu também, alma bendita. Segue os exemplos seguros desta tua mãe, que te é tão dileta. Ela te escreve isto para a tua edificação. Espero, no Senhor Deus e na tua prudência, que o tempo gasto nisto não fique sem fruto, mas seja de suma utilidade para o teu coração. Aquilo que podes fazer em um ano, não o faças em dois. Caminha, corre, voa na via de Deus. Os virtuosos caminham, os sábios correm, os enamorados voam. Se podes correr, não caminhe. Se podes voar, não corras, porque o tempo é breve.
 Na via de Deus sempre deves ir em frente, nunca voltar atrás. Se ao fogo não se junta lenha, logo se apaga. Se a alma não se ajunta virtude a virtude, o amor acaba. Acontecendo isto, a alma, começando generosa com o “Creio em Deus”, terminará depois com a “ressurreição da carne”, isto é, distraída em mil pensamentos e preocupações mundanas.
Deus, na sua eterna, infinita bondade, se dignou afastar-te, e a toda alma cristã, de tal estrada! Por isso, se queres ter grande proveito, teme a Deus e ama aqueles que te caluniam. Vela sobre ti, abres os olhos da alma, tem a mente ancorada em Deus!
Poucos são aqueles que desejam ardentemente chegar a esta perfeição angélica. O nosso benigníssimo Jesus a ensinou com a sua própria dulcíssima boca. Mas poucos são aqueles que chegam a verdadeira perfeição: isto é, amar os próprios inimigos.
Quero, alma bendita, que em tua consagração a Deus tu sejas perfeita, espelho de virtude e de santidade aos teus irmãos. Como no mundo, estando tu no estado sacerdotal, superaste em virtude, honestidade e dignidade os teus companheiros e superiores, agora no estado religioso, não diminua o teu ânimo generoso, magnânimo e viril.
“Na dificuldade cresce a virtude”, diz o filosofo. Dificílima coisa é amar os próprios inimigos, por isso máxima é a virtude. Quando a alma é crescida em graça, não há mais inimigos. Cada pessoa é amiga e preciosa, e a ajuda  a fazer-se santa. Como é bela esta teologia! Quanto seria útil se fosse compreendida por todos nós! A alma têm, então, por inimiga somente a si mesma. O mundo e o inferno são amigos, nada lhe impede mais a salvação, senão os seus afetos desordenados. Pacificada consigo mesma, está em paz com todos. Feliz de ti se chegares a este grau! Aqui está escondido o germe da impassibilidade futura. Aqui está oculto o tesouro da paz para a mente e para o coração. Quem não entra aqui não encontra nenhum bem nesta vida mortal. Aqui a alma se rejubila com Deus. Deus quer paz, pois é Rei da Paz. Quer habitar somente com os construtores de paz.
Cuida, cuida de não pertencer ao número dos religiosos tolos, inquietos, duvidosos, delatores, litigiosos, que desconfiam de cada mover de folha. Cada pulga parece-lhes um cavalo, cada palha uma trave insuperável. Mesquinhos, infelizes! Deus nunca habitará com a sua graça em suas almas neste mundo. No outro, depois, ali haverá o que fazer!...
Agarra-te ao meu conselho. Se procurares repouso, em cada coisa o encontrarás. A paz repousara assim em teu coração, na consciência e na mente. A paz se conquista com a observância dos preceitos evangélicos: amar sinceramente, sem fingimento e de todo o coração os próprios inimigos.
Está estabelecido na Regra, por inspiração do Espírito Santo, que os superiores visitem os súditos, pois está escrito: “ Tua visita guarda meu espírito. Aqui há lepra!” (Jó 10,12). Se queres evitar confusões, presta atenção a esta exortação: se não vês, com teus olhos, um pecado grave e evidente, cala-te! Há muitos ignorantes que pensam fazer um grande bem quando podem dizer aos seus Superiores tagarelices e mexericos. Disso ganham amargura e remorso por todo o ano e talvez por toda a vida.
Calo, pois nem sempre é bom abrir os olhos aos cegos. Deus mesmo ensinou a tua mãe sobre isso. Ela era ignorante das coisas espirituais e das regras monásticas. Não compreendia a importância e o sentido profundo que tinha esse ensinamento. Mas, quando abraçou a Vida religiosa, bem compreendeu o conselho do Espírito Santo. Há cerce de dezoito anos vive no mosteiro como súdita ou Superiora: nunca disse coisa alguma de qualquer Irmã em particular.
Se acontecesse que, por instigação do demônio e permissão de Deus para teu maior progresso, todos dissessem mal de ti, “não deixes a vingança aos teus filhos”. Fala tu mesmo, louvando aos Visitadores a santidade dos teus irmãos. Fala deles como de anjos encarnados. Não indagues quem falou mal de ti, a fim de que não te nasçam no coração desdém e ódio. Estes dois vícios tornam odiosas a Deus até as nossas orações e ofertas espirituais. Mas tal grandeza de ânimo não se pode ter, se a mente não estiver sempre ocupada em Deus e no conhecimento de si. Somente assim a alma se torna cega aos defeitos do próximo. Não vendo as faltas e s defeitos dos outros, pode dizer sempre, com a consciência tranqüila: “todos me parecem anjos encarnados”. É assim que a tua mãe adquiriu este dom.
Ela não sabe o que contar aos Visitadores, nem o sabem as suas noviças. Quando alguma coisa lhe era referida, maravilhava-se como se fosse coisa de outro mundo, e dizia para si mesma: “disto eu não me dei conta”. Aprende, pois.
Vê, tua mãe compreendeu uma sutil tentação do diabo, que engana também os perfeitos. Porque te amo de todo o meu coração, quero revelar-te. O demônio cobre com a aparência de bem as murmurações e os juízos temerários dos religiosos. Este seu laço é muito sutil, invisível aos olhos espirituais dos contemplativos. É uma péssima sanguessuga, que suga, suga, arrebata todos os sacrifícios e as boas obras dos religiosos e das religiosas.
Esta é a péssima  lepra da qual se manchou a profetisa Maria, irmã de Moisés. Não lhe protegeu o seu espírito profético. Por haver murmurado, foi coberta pela peste  mais horrível e tormentosa. Se Moisés, de quem havia murmurado, não houvesse pedido por ela, teria se consumido e morrido em poucos dias, como narra a Sagrada Escritura. Personagem que nos ensina muito! Exemplo no qual espelhar-nos, colocado pelo Espírito Santo no Antigo Testamento para fazer refletir e tremer os murmuradores.
Reflete-se bem pouco sobre este ensinamento, menos ainda é compreendido e aprofundado. Mas quem o medita e se mantém distante da lepra da maledicência, tem neste mundo seguro penhor da glória do Paraíso. Tenho pena dos murmuradores e invejo quem é objeto de murmuração. “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28).
A lepra não só devora a carne do infeliz que é atacado por ela, mas infecta também a quem dele se aproxima. Por isso Deus mandou que dessem a Maria uma tenda fora do acampamento, a fim de que não contaminasse os outros. “Tanto faz quem tem, como quem oferece!”, isto é: o mal é feito tanto por que murmura, quanto por quem escuta. Antes, mais pelo segundo do que pelo primeiro. De fato, se não fosse quem escuta, não haveria quem murmura. Um demônio está sob a língua de quem murmura e outro na orelha de quem escuta. Este e aquele riem, riem entre eles e fazem gozação do bobo que murmura e do louco que escuta.
Quero que tu sejas sábio, que não murmures e que não escutes o que murmuram. Se fizeres calar o murmurador, dois bens obterás: expulsarás o demônio da língua do teu irmão e confundirás o outro diabo que já estava pronto para se colocar em tua orelha.
Dei-me conta que fiz uma longa digressão. Acredito que as tuas assíduas orações foram a causa para o teu maior progresso. Não quero que murmures jamais de qualquer pessoa e nem de fato algum, nem bom nem mau. Recorda-te pois não falo sem motivo. Mantém apertada a rédea, filho amado, pois como escreve São Tiago na Carta Católica, “ vã é a religião de quem não freia a sua língua” (Tg 1,26).
Eis o sutil laço do demônio: ele sabe que toda ação nossa não é agradável a Deus, e é infrutuosa para nós, se não é fundada sobre a caridade. Por isso ele tenta, com os mexericos e as críticas. Gestos que, considerados com maturidade, não são outra coisa que ninharias e aparência,  não são julgados assim pelas almas imperfeitas. Que não enxergam o modo e o momento em que a palavra é dita ou a ação é feita. Assim, a caridade fraterna esfria, rompe-se o vínculo da paz. Às muitas suspeitas, segue-se antes o resfriamento, depois a total extinção da caridade. Quando o diabo vê isto, sente-se, primeiro, que está a cavalo! Não se preocupa mais com a nossa obediência, não estima nada a nossa castidade, goza da nossa pobreza. Ri das nossas devotas lágrimas, penitências, jejuns e de todas as nossas obras virtuosas.
Somente a caridade torna-nos agradáveis a Deus e nos doa o Paraíso! Por isso o arco do demônio atira sempre as suas flechas envenenadas nesta raiz do amor fraterno. Ele mira para destruir esta virtude. Assim,  tenta com juízos temerários, à detração e à calúnia. É por isso que na Visita Canônica enche as almas de suspeita, semeia cizânia nos corações. Extermina o zelo pela honra da Fraternidade, porque leva a dizer, a referir aquilo que não convém.
Ai de mim! Quantos bens perdem as almas cegadas por sua malícia, quantos dons de Deus, quantas inumeráveis graças! Quantos sacrifícios acabem sem fruto! Quantos remorsos de consciência daí derivam! Almas que se tornam inquietas, incapazes de reconhecer o bem. Não possuem mais o amor pela oração, nem confiam em Deus. O seu coração é incapaz de gozar da alegria espiritual. Todos estes males procedem de não saber frear a língua. Cala, cala sobre os fatos alheios. Diz o salmista: “Permanecei quieto, em silêncio!” (Sl 38,3).
A ti falo, meu filho! Quero que tenhas este modo de conversar, porque por graça de Deus, assim fez aquela tua cordialíssima mãe e obteve — dom particular de Deus — tanta paz que jamais poderás imaginar. Este dom eu desejo que tenhas também a tua alma bendita.
Tenhas os olhos da alma sempre vigilantes “para não caíres mais no sono da preguiça e negligência”. “O Reino dos Céus sofre violência e os violentos o arrebatam” (Mt 11,12). Esta palavra evangélica foi colocada no coração desta tua mãe pelo próprio Espírito Santo. Dormindo ou velando, esta máxima: “O Reino dos Céus sofre violência...”, está fixa em sua mente, a faz vigilante e forte.
Não durmas, meu amado filho, em tua vida espiritual, o sono da tepidez. Muitos religiosos se esquecem do primeiro fervor e trabalham sem reta intenção e sem intensidade de amor. Seguem os horários, as regras, as práticas comuns, como fazem as cabras: quando uma salta, as outras também saltam e não sabem porquê... Assim o religioso espiritualmente adormecido, continua a seguir os hábitos adquiridos, mas não os reaviva com o amor e nem aprofunda-lhes o significado. Como o “asno que carrega vinho e bebe água” assim estes religiosos fazem grandes sacrifícios com pouco ou nenhum fruto.
Como a matéria informe não é bela nem útil, assim as boas obras, realizadas sem a reta intenção, não agradam a Deus e nem são úteis a nós. Embora a ação virtuosa seja por si própria um louvor, se não é acompanhada pela reta intenção é vã e inútil, como matéria sem forma. Tolo é aquele que a realiza assim!
Tu, sê prudente e sábio. Não imites o comportamento dos loucos! Em cada obra, pequena ou grande, volve os olhos da tua mente em direção a Deus, santifica a tua intenção e suporta por seu toda situação adversa. Somente pelo amor do mesmo Senhor faze oração, salmodia e canta o Ofício Divino, lava os pratos, cuida da casa, cumpre cada obra de caridade para os sãos e os enfermos.
Acredita em mim: se quando cumpres estas ações te habituares a repetir com a mente: “Senhor, por teu amor!”, o dirás até mesmo sem o pensar. Assim o fez sempre a tua mãe. Embora pudesse fazer pouco trabalho material, porque esteve longamente doente e muito fraca, todavia digo-o para teu exemplo, em verdade sempre fez além das suas forças. Deus o sabe e o sabe sua consciência.
Procura ter sempre aceso o desejo de fazer penitência. Não o faças ao teu modo, mas segue as ordens de teus superiores. Muito mérito terás diante da Santíssima Trindade, que sonda o coração. Procura ter este último sempre inflamado de amor. Em chaleira que ferve, as moscas não se aproximam... ao contrário daquela morna, aonde elas até se afogam.
O diabo se afasta e foge da alma que ferve pela força do fogo do divino amor. Mas da alma morna na Caridade e fria no amor, aproximam-se as moscas da vaidade e dos pensamentos inúteis e aí elas se afogam. Infelizmente, muitos adormecem na Vida Religiosa e, dormindo, sonham conquistar a santidade. No momento da morte verão o quanto eram falsos os seus sonhos e as suas quimeras. Encontrar-se-ão com as mãos cheias das moscas das ilusões diabólicas.
Abre os olhos, meu reverendo filho em Cristo, não brinques com os poucos dias que te restam de vida! Estejas vigilante, ardente de amor segundo a graça que Deus te dá, e possas tu dizer com o Apóstolo: “A sua graça em mim não foi vã” (1Cor 15,10) porque eu vigio contigo, ó Deus da aurora (Cf. Sl 62). Estejas seguro, em pouco tempo terás grande proveito!
Duas coisas são essenciais: sem a primeira não há salvação, nem santidade sem a segunda. Ora, eu te quero salvo e santo. “O sacerdote, de fato, deve ser perfeito” ( Pontifical Romano). Esta tua mãe sempre desejou um estupendo milagre e uma admirável revelação. “Sem este milagre — dizia — não posso salvar-me; sem aquela revelação não posso ser santa”. Faze tu o mesmo.
Alma bendita, pede com insistência ao Senhor que te dê a graça de realizar este milagre: perseverar na Vida Religiosa até a morte, pois “quem perseverar até o fim se salvará” (Mt 10,22). Estupendo este milagre! Três potentíssimos capitães com inumeráveis exércitos de tentações assediam a alma para despedaçar-lhe a resistência. Possuem tais e tantas artilharias que, se a alma não fosse confortada por Deus, jamais poderia cumprir este milagre da santa perseverança.
Este fortes capitães  dirigem os seus poderes em particular contra o intelecto. Digo que são fortes  porque com a sua arte subjugaram quase todo o mundo. Fizeram presas de todo o estado, qualidade e sexo de pessoas, conduzindo todos prisioneiros. “Ao sagaz bastam poucas palavras!”  Mundo, carne, demônio: eis os três capitães.
Como é perigosa, terrível, mortal esta luta! Que Deus onipotente dê aos seus servos o poder de ressuscitar os mortos, dar a visão aos cegos, curar os enfermos, não é um grande milagre. É próprio da onipotência divina trabalhar sobrenaturalmente. Não seria Deus se não fosse assim! Mas que uma frágil criatura, da qual é dito: “no pecado minha mãe me concebeu” (Sl 50,7) vença o mundo, supere a carne e alcance vitória sobre o demônio, somente com a ajuda da fé católica, este é o mais estupendo milagre!
Não te assustes com a luta, meu caríssimo filho. Aquela tua mãe dileta, embora frágil criatura, com a divina graça, com o auxílio e a orientação dos anjos, triunfou sobre os dois primeiros capitães: a carne e o mundo. Combateu com força em campo aberto com um e com outro. Deus sustentou-a com sua graça e deu-lhe a vitória. Agora o mundo pode fazer o que quiser. Dele ela não tem cuidados com mais nada. Com os pés enxutos já passou o Mar Vermelho.
Por graça do Espírito Santo, esse inimigo, sentindo-se quebrada a cabeça, não mais retorna. Ela o prendeu com indissolúveis cadeias de ouro. A tua mãe provou a doçura do amor divino. Como poderia adaptar-se a procurar glória e dignidade humanas? Toda coisa do mundo é para ela amargura, fel, inferno. A sua carne, a despeito daquilo que não teria querido, se fez impassível. Pode-se dizer que ressuscitou antes da morte. Por graça de Deus e obra do Espírito Santo ela goza no corpo juvenil e mortal uma dignidade angélica.
Saibas que para vencer este cruel tirano da carne, sentiu penetrar em si até à alma a água de um duro sofrimento. O ferro de sua lança potente traspassou-lhe o coração. Agora, com a graça de Deus sempre mais eficaz nela, combate o inimigo e vence. Não mais, não mais! Deus sabe tudo dos seus fatos. E ela pode dizer: “Tu, meu clementíssimo Senhor, manifestaste-me os segredos de tua Sabedoria e Potência!” Ela, por dom de Deus, viu e fez coisas incríveis. Por meio dela, Ele converteu o mal em perfeito bem e em grande honra para Si. Deu-lhe a graça de poder prender os inimigos com as suas mesmas armas, amarrá-los e apresentá-los como prisioneiros voluntários diante do trono de Deus, de modo que agora “ seus nomes são inscritos no livro da vida”. A inescrutável, secreta Sabedoria divina mudou em amigos fidelíssimos os próprios inimigos.
Tua mãe uniu a uma confiante esperança, uma grande paciência; com a ajuda de Deus abraçou corajosamente o empreendimento e obteve vitória. A Ele somente a glória e a honra pelos séculos dos séculos. Amém! Tua mãe, pois, não teme o terceiro capitão. Não o teme por duas razões: sabe e crê pela fé que o demônio pode fazer somente aquilo que Deus permite. Ela escolheu para seu Paraíso a vontade de Deus na terra e no céu. Assim, não teme os esforços do espírito maligno. Deseja, antes, que ele faça contra ela tudo quanto Deus ordenou ou permitiu. Disto nasce uma perfeita paciência com o demônio e com as criaturas. Nem estas nem aquele poderão jamais dizer ou fazer senão aquilo que agrada a Deus e é conforme à sua vontade. Ele, infinitamente bom, quer a sua salvação, ama-a mais do que ela ama a si mesma. Nada há a temer aonde brilha segura a proteção do Pai celeste.
Segunda razão: não teme o demônio porque está certíssima de que aquele Deus, que por sua bondade concedeu-lhe a graça de triunfar sobre os dois capitães mais potentes, dar-lhe-á ainda sabedoria, vigor e força para superar o terceiro, o mais débil. O espírito maligno não nos pode fazer mal algum, se nós mesmos não lhe emprestarmos as armas da nossa livre vontade. Alegra-te portanto! Estejas contente, meu filho, nas chagas do doce Jesus!
Se uma vil mulherzinha supera, vence, alcança vitória sobre esta cruel milícia (dois terços do milagre, com a ajuda de Deus, por ela já foram completados), que farás tu, magnânimo, batalhador, viril, nesta exaltante luta espiritual? Deus, os anjos e os santos são espectadores deste glorioso torneio. Do palácio celeste estão a admirar os golpes dos cavaleiros enamorados. Deliciam-se a fixar os olhares sobre a corte desta nossa vida presente. Aqui os filhos do Deus onipotente, por amor a Jesus crucificado, continuamente disputam com o mundo, fazem guerra à carne e, com a espada em mão, valorosamente combatem o demônio.
Esta gloriosa batalha não conhece paz ou trégua até à morte. Que coisa escolhes? Querer salvar-te servindo a Deus não é uma bagatela. É um forte empenho e quem o escolhe deve suar muito. Tu, meu filho dileto, nasceste exatamente para isso; eu o sinto, eu acredito. Antes que o mundo fosse criado, tu foste destinado a isso. O teu ânimo é grande, a tua mente está disposta a este magnânimo empreendimento. Não duvides! A despeito do mundo, da carne e do demônio, tu serás vitorioso. Pela graça de Deus e as orações desta tua dileta mãe, tu o serás! Cumpre, portanto, este grande milagre: persevera na Vida Religiosa até à morte! Não existe milagre maior.
Quero, além disso, que tu peças a Deus esta admirável revelação: que Ele te revele a ti mesmo, faça-te conhecer quem és, o quanto podes, o quanto sabes e o quanto mereces. Sem esta revelação ninguém  tornar-se-á santo. É um segredo que não se aprende com os outros; está recluso no sacratíssimo Coração de Jesus Crucificado. Ele o revela a poucos, a alguns mais, a outros menos, segundo o grau de santidade ao qual os chama. Não penso que a este conhecimento pleno se possa chegar nesta vida presente. Na outra, sim. Lá perceberemos ao vivo toda a nossa pequenez, fragilidade e estultícia. Isso pela humildade do coração, que não aparece aos olhos dos homens, mas é muito querida e agradável a Deus.
Esta tua mãe espiritual não aspirou  jamais a outra revelação senão conhecer a Deus e a si mesma. O Dispensador das graças, infinitamente generoso, benigno e cortês, não negou-lhe esta graça. Muitos anos passaram, enquanto fazia orações diante do Crucifixo, Deus a iluminou sobre esta verdade. Jamais seria santa, se não tivesse confessado, além da Trindade divina, uma outra trindade. Como não se pode ser cristão sem crer e testemunhar a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, assim para sermos perfeitos, é necessário crer e testemunhar esta outra trindade, isto é, de sermos um nada, pessoas insensatas e o oprobriosas diante de Deus. Ó trindade beatíssima, desconhecida, desacreditada e desprezada pelos ignorantes espirituais!
“Ó meu Deus, — assim pedia a tua mãe — priva-me da vida, antes que do conhecimento de mim mesma. Reduze os meus ossos ao  diminuto pó, antes que este conhecimento se afaste de minha alma. Só esta doutrina da eterna Sabedoria  conservará o meu coração perfeitamente humilde”. “Meu Jesus crucificado, sem esta humildade não posso agradar-te, vida vivificante de minha alma. Não posso gloriar-me de potência, porque o meu poder é um nada, nem exaltar-me por sabedoria, pois não sou nada mais que estultícia. Não posso presumir de merecer diante de Ti, sendo eu uma vil criatura, oprobriosa aos olhos de Deus, mais oprobriosa que o próprio opróbrio, pois quem comete pecado é servo do pecado!” 
o pecado é um nada e eu pequei: sou portanto menos que nada, tanto quanto o servo é menor que o patrão. Que o pecado seja um nada, o deduzimos da propriedade que ele tem de anular a imagem de Deus em nós. São João não diz por ventura que sem o Verbo de Deus nada teria sido feito? Sem Deus só existe o pecado. Toda outra coisa e é feito por Ele.
Quando a alma sente que pode trabalhar, sabe que a potência do Pai deu força ao seu nada. Quando sabe ensinar os outros na vida espiritual, compreende que a Sabedoria do Filho tornou sagaz a sua estultícia. Quando sente que ama e é amada, descobre que o Espírito Santo com o seu suavíssimo amor enamorou e fez amável o seu ódio. Assim, remetendo todo o seu bem a Deus, sua alma permanece livre da vanglória e da fumaça da fétida soberba que expulsou o Anjo do Paraíso. Por isso pode cantar como o profeta: “Senhor, não se orgulha o meu coração e não se ergue com soberba o meu olhar” (Sl 130).
A tua mãe tem por certa esta verdade: se a alma espiritual não procura ter em si este lume, esta essencial revelação de si mesma, nunca poderá manter-se humilde de coração, nem diante de Deus nem diante das criaturas. Saibas que ela é muito reverente no comportamento externo, porém muito mais no coração. Não demonstra a sua devoção, porque é grande inimiga de toda a hipocrisia.
Assim, seguida e furtivamente, esta tua mãe beija o chão da igreja onde as suas irmãs põem os pés. Considera-se indigníssima de por a sua boca pecadora onde estas colocam os seus pés virginais e santos. Ao menos assim lhe parecem. Escrevo-te estas coisas com lágrimas nos olhos, porque sinto que somente a tua devoção e as tuas orações me forçam a dizer-te os segredos desta pobrezinha, guardados por tantos anos. Ela respeita e reverência a todas, começando pelas mais dignas por ofício e idade avançada, e jamais foi tentada a pensar: “eu sou mais do que aquela!” Muitas vezes também faz referencia às menores, rindo e brincado externamente mas no seu íntimo, com todo o coração, considerando-lhes esposas de Cristo.
Procura, pois, meu filho, ser humilde de coração, reverente, benigno, piedoso e manso. Espelha-te no Coração puríssimo do doce Jesus. Conforma-te a Ele, se queres a sua dulcíssima amizade e familiaridade. Deste Coração, deste sacratíssimo peito, a tua mãe extraiu todo ornamento, interior e exterior. E este doce, este enamorado Coração foi o seu mestre. Aqui somente foi instruída; aqui estudou. Aqui não se lê outra coisa que: verdade, mansidão, piedade, doçura, alegria de coração e júbilo de consciência. Aqui não se encontra outra coisa que não seja amor e caridade: amor a Deus e caridade para com o próximo. Ó Coração divino, não posso senão falar de ti! Nele a tua mãe viu escrito o seu nome com letras de ouro, claras e esplendentes.
Alma dileta, entra naquele Coração, se queres tornar-te santa logo! Esta é a via breve, segura, infalível, pela qual caminha e caminhou a tua mãe. Segue-a, portanto, porque a conformidade gera e conserva o Amor. Volta-te para Deus e dize a Ele: “Esta, esta revelação  quero de ti, meu Senhor. Sem ela não poderei ser santo. E a santidade é essencial à dignidade e excelência do meu sacerdócio”.
Pede a Deus com todo o coração alma reverenda, e ele seguramente dar-te-á aquela revelação. É tão bom e liberal, tão pleno de todo dom e graça, que sempre, também antes que lhe peçam, dá aos justos e aos pecadores, tirando da plenitude de sua bondade. E eis que cantará eternamente as misericórdias do Senhor a alma de tua mãe, que tu amas (Cf. Sl 88,2).
Preserva-te de ser ladrão! Quem rouba acaba pendurado na forca da divina Justiça. Mas a alma que sabiamente rouba Cristo será pendurada na sua Cruz de amor e servirá perfeitamente o Pai com seu desejado Esposo, Cristo Crucificado. Não quero que tu, meu dileto filho, roubes de modo algum a honra e o amor devidos somente a Deus, pois “somente a Deus a honra e a glória” (1Tm 1,17). O Senhor se lamenta com o Profeta: “Se eu sou o Senhor, onde está o temor por mim? Se eu sou o Pai, onde está o amor por mim?” (Ml 1,6).
Deus não quer que retenhamos para nós aquilo que é seu por direito. Destas duas coisas, amor e honra, tua mãe foi sempre particularmente zelosa. Conservou-as intactas, imaculadas, ao seu Deus criador do universo. Teve sempre mais medo de tocá-las do que da peste. Fugiu da honra e do amor das criaturas com pureza de intenção, mais do que se foge de uma serpente venenosa.
Muitas vezes com todo o coração repetia a Deus: “Se vês que, pela minha malícia, posso apropriar-me destas duas coisas, priva-me para sempre de todas as tuas graças e dons, porque não os quero! Se dissesse palavras para adquirir  honra Tu, que tudo podes, faze com que se tornem para mim vergonha e confusão. Se disser qualquer coisa para conquistar amor e benevolência, faça com que gerem ódio e malevolência. Tu, meu Deus, podes fazer tudo. Se me vês ladra, não confies a mim tuas graças e teus dons. Somente a Ti são devidas a honra e a glória, não a outros. Se, ao contrário, me vês fiel nestas duas coisas, dá-me também: aceito para a honra de tua divina Majestade e para o bem do próximo”.
Às vezes esta tua mãe, com humildade sincera e grande temor, pedia a Deus para que os dons e as graças que Ele queria dar-lhe fossem dados a outra criatura, pois assim Ele teria maior honra. Sinceramente acreditava que nenhuma criatura no mundo possuísse as graças de Deus mais inutilmente do que ela. E se Deus a houvesse escutado, concedendo a outros as graças preparadas para ela, teria experimentado uma grandíssima consolação, pois procurava a honra de Deus e não a sua utilidade.
Acredito que a tais almas é que se dirigem as palavras do Evangelho: “Servo bom e fiel: foste fiel no pouco, darei a ti poder sobre muito. Entra na glória do teu Senhor!” (Mt 25,25). Às mesmas almas penso que seja endereçado o preceito do Apocalipse: “Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida” (Ap 2,10). Não basta ser fiel por dez ou vinte anos, mas até a morte! Fiel é o servo que, não só vivendo  mas também morrendo, dá ao patrão aquilo que lhe deve. Preserva-te, meu reverendo filho, de ser ladrão! Diante de Deus não te servirá ser doutor, sacerdote, religioso... Nem mesmo aos outros servirá ser constituído em dignidade. De fato, está escrito: “Servi a Deus com temor e com tremor exultai” (Sl 2,11). A tua mãe, para não roubar a Deus o amor, em sua vida religiosa não se deu jamais a nenhuma criatura, nem permitiu que nenhuma criatura se desse a ela.
Ela é muito amável, por isso sempre evitou que a amassem muito. Sempre fugiu das ocasiões de amar e ser amada. Quando se dava conta de ser amada de modo particular, sentia grande sofrimento e pedia a Deus com calidissimas lágrimas a fim de que temperasse e tirasse aquele amor do coração daquela pessoa. Uma vez se esforçou para apresentar em troca uma pessoa mais virtuosa do que ela. E tudo isso para não roubar o amor a Deus. Parece que nenhuma seja mais atenta a isso do que ela.
Enfim te digo com toda a sinceridade: ninguém experimentou nunca tanto prazer e satisfação em ser amado quanto ela experimentava  desgosto e dor. Quanto chorou por estes amores quando não eram regulados por Deus. Para não roubar a honra a Deus sempre escondeu o quanto podia as graças singulares e os dons concedidos a ela pela divina Majestade. Esforçou-se para não parecer espiritual com as irmãs, de brincar, rir, gracejar. “Somente a Deus a glória e a honra!” (1Tm 1,17). Preferia ser julgada pouco boa antes que santa. Ora, num estado mais alto, não se cuida de mais nada... Tudo  está voltado a Deus, não a si. Não faz caso da honra e do amor, mais do que do ódio e da vergonha. Diga-se ou faça-se qualquer coisa, está contente com tudo, como endereçado aos outros , não a si.
Meu filho em Jesus Crucificado, para tua consolação eu te escrevo cada particular de tua mãe. Tu, porém, sê prudente. Imita-a naquilo que é bom. Porém deixa a Deus mudar os estados de tua alma como ela mesma o fez. É necessário ser “vaso de barro” antes que “canal”. Por quase vinte anos, esta tua mãe foi um “vaso de barro”, isto é, procurou guardar, conter a graça em si. Depois, como “canal”, a difundiu e escreveu aos outros.
Digo ainda a ti, que esta alma bendita por Deus foi sempre tão zelosa de não roubar a honra a Deus. Sinceramente humilde, parecia-lhe que as graças do Senhor fossem colocadas em lugar muito vil. Acreditava que o fato de ter posto nela, pecadora, muito pobre de virtudes e tão pouco espiritual, tantas graças, fosse de tanta vergonha e desonra ao seu celeste Esposo. Por isso ela as calava, escondia-as com todo o cuidado.
Uma vez fugiu da oração comunitária por algum pretexto, para que a graça de Deus derramada sobre ela não fosse conhecida pelas irmãs e pelos frades. Para não dar um espetáculo de si[1], fez um acordo com a leitora da mesa: que não lesse a narrativa da Paixão de Cristo enquanto as irmãs comiam. “Não podem — dizia — engolir alimento algum ouvindo aquela amorosa história!” Tudo isto dizia para si, porque temia que alguém se desse conta de que não se alimentava ou de outro efeito extraordinário. Agora raramente vai ao refeitório, porque tem dois motivos. Mas o faz mais por este motivo do que pelo outro.
Digo-te isto, Pai e filho meu em Jesus Cristo, para que também tu aprendas a esconder as graças de Deus, de modo que Ele não disponha diversamente. Bem-aventurada alma que quer somente Deus por testemunha de suas santas operações! Quantos esforços ela fez para isso! Quantas reprovações infundadas sofreu tua mãe, quantos juízos falsos, temerários, presunçosos por algo que muitas vezes era digno de louvor diante de Deus e dos homens! Recebeu, ao contrário, vilanias e repreensões diante de Deus e dos homens. Mas ela esteve firme, constante, imóvel como torre estabilíssima, certa, pela sua fé inabalável, de que o seu fidelíssimo Esposo Jesus, no tempo oportuno, haveria de tomar a sua defesa e de jogar atrás de suas costas aquele escudo com o qual, para provar-lhe a fé e a paciência, havia lhe coberto por tantos anos.
Esta alma, sempre e de muitos modos, demonstrou a retidão de seu coração, procurou agradar somente a Deus, sem considerar os juízos humanos. Para salvar a honra de Deus, não se preocupou com a própria vergonha. Vê, meu filho, de não roubar a Deus. Seria uma vergonha para tua mãe e um dano eterno para ti. Sê sempre fidelíssimo. Teme, ama, honra o teu Deus, porque “tudo aquilo que o Senhor quer, cumpre-o, no céu e sobre a terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 134,6).
Mantêm a mente fixa em Deus, o quanto te for concedido pela graça divina e por tua fragilidade. Esta é a coisa mais útil e necessária que pode fazer o homem, servo do Onipotente.
Pensar em Deus santifica a mente, aquece o coração, ilumina o intelecto, freia as paixões, afasta dos pecados veniais, estirpa os vícios e prepara para a oração. Muitos vão à oração todos os dias, mas durante a jornada lembram-se pouco de Deus. Sentem-se, depois,  indevotos, áridos, indispostos, cheios de distrações e dizem: “Eu não acho graça na oração!” Mas não é assim. Não endereçaram as suas mentes para Deus, coisa que prepara o acento para a oração mental. Aqueles que seguidamente pensam em Deus logo atingem o fim desejado: preparam o lugar para Deus. Recebem a graça das devotas lágrimas, da compunção, do gosto espiritual, da devoção.
Os religiosos sábios e espirituais usam este santo método no mundo presente e continuarão eternamente na glória do Paraíso. É este um sinal infalível, mais do que qualquer outro para conhecer se alguém está inscrito no “livro da vida”. Porque o pensar seguidamente em Deus força a divina Bondade  a recordar-se de nós, estejas certo que, quanto mais seguidamente te recordares de Deus, tanto mais Ele pensará em ti. O próprio Espírito Santo ensinou tua mãe para que nela aumentasse sempre mais este angélico exercício. Saibas que ela possui esta graça: seguidamente, seguidamente recorda interiormente o Redentor e chama-O em seu coração.
Jamais poderei descrever-te quanto fruto rendeu-lhe este exercício. Mas quero falar-te de três admiráveis efeitos, dos quais muitos bens derivam. Primeiro: tornou-lhe cega aos defeitos do próximo. Segunda: ornou-lhe a alma de cordial devoção. Terceira: concedeu-lhe falar de Deus com inflamado amor. Isto não ficou sem fruto para muitas almas, e para ela foi utilíssimo. “A boca  fala da abundância do coração” (Mt 12,34). O homem fala daquilo que tem dentro. A garrafa não pode dar outra coisa a não ser o vinho que contém.
Tua mãe chegou a manter a mente fixa em Deus por dois meios. Primeiro: repetindo freqüentemente, ao menos no pensamento, alguns versículos do Salmista, como por exemplo: “Desvia o olhar de meus pecados”(Sl 50,10). Estas santas palavras, repetia-as com a mente, tão seguidamente que adquiriu tal hábito de proferir-lhes até sem pensar. Começou tal prática quando estava ainda no mundo; e tão seguidamente repetia este versículo, que salmodiava até dormindo. Segundo: um fato ajudou tua mãe a manter fixa a mente em Deus, isto é, uma grande tribulação que afligiu-a por cinco anos. Era, então, constrangida a chamar por Deus a fim de que a ajudasse. De dia e de noite, gritava a Ele: “Ó Deus, vem salvar-me. Senhor, vem logo em meu auxílio” (Sl 69,1); “Ergo os meus olhos para os montes, de onde virá o meu socorro? O meu socorro vem do Senhor” (cf. Sl 120,1-2).
Continuamente a sua alma, aflita e angustiada, andava invocando: “Ó Deus, ajuda-me! Ó Deus, não me abandones nesta extrema luta! Ajuda-me, pois faltam-me as forças! Não posso mais! Sustenta-me com a tua mão poderosa! Meu Deus, tu estás adormecido no barquinho de minha alma e a tempestade de um mar diabólico me submerge! Senhor Jesus, sem ti não existe paz!” Assim, naquele período tão perigosamente tempestuoso, adquiriu o santo hábito de não distanciar a mente de Deus, e também em tempo de paz, fielmente o conservou. Semelhantemente faze também tu, filho enamorado de Jesus, e em pouco tempo verás “as maravilhas de Deus”. Repete, portanto, com o Profeta: “Ponho sempre o Senhor diante de mim” (Sl 15,8). E ainda: “Os pensamentos do meu coração estão sempre diante de ti” (Sl 18,14). Nas Escrituras encontrarás muitos outros versículos nos quais o Profeta e outros Santos nos mostram que tiveram sempre a sua mente ancorada em Deus. 
 São muitos os que procuram a pureza de coração por um caminho longo e cansativo: jejuando, ficando sem dormir, flagelando-se, dormindo no chão e afligindo de outras maneiras os seus corpos. Tudo para obter a pureza de coração, na qual consiste a santidade consumada. Mas esta tua mãe, considera verdade certíssima que pensar seguidamente em Deus faz conquistar este dom melhor, mais rápido e com menos cansaço. Seria tolo quem, podendo ir para Roma em um dia por um caminho curto, plano e muito fácil, escolhesse empenhar quatro dias e ir por uma estrada áspera e difícil. Toma, meu filho, toma este caminho curto, doce, suave, seguro e escondido que te guia ao Paraíso sem que outros o notem. Abraça-te a Cristo e estejas seguro de enriquecer-te sem que outros vejam...
Concluo. Quem pensa seguidamente em Deus, “Deus permanece nele” (1Jo 4,15). Para quem O tem em si com a graça, nada falta. Em teus pensamentos e nas tuas ações procura, o quanto puderes, ter somente a Deus como fim. Não te prendas às criaturas. Por exemplo: se fazes uma caridade para com teu próximo, é ótimo ter por objeto ele como teu próximo, porém muito melhor é considerá-lo como membro de Cristo. Quanto mais nobre, excelente e meritório é este segundo caso! Pensa quanta diferença entre este e aquele!
Ainda que por pobres criaturas humanas, tantos religiosos perdem muitos prêmios pelos seus esforços. Tu entendes e sabes muito mais do que eu, porque  és muito douto nesta matéria, a diferença que há entre formalidade e nobres intenções. Quando podes ter um ducado, não te contentes com um troquinho. Escolhe Deus, pensa em Deus! Os pensamentos de teu coração, volta-os sempre para Ele (Cf. Sl 118).
Quero, meu dileto filho, que sejas muito generoso para com os outros e muito avaro para contigo. O mundo faz o contrário. Os mundanos são muito generosos com a própria pessoa, não recusam nada a si mesmos. Mas para o próximo são miseráveis. Se faltassem a alguém mil coisas, nem mesmo uma quereriam conceder. Ó cegueira devastadora! Ó grande calamidade! O Senhor do universo é generosíssimo, pródigo, cortês, infinitamente compreensivo. E eis que o servo, ele que vem nu a este mundo e logo retornará nu à terra, mostra-se avaríssimo, miserável, desapiedado, cruel para com o próximo, seu irmão.
Ó suma, Santíssima Trindade, rendo infinitas graças a ti! De quanto é incapaz a minha impotência, quanto é inteligente a minha tolice, de qual amor clementíssimo é capaz a minha odiosidade! Pelo que pode a minha impotência e sabe a minha estultícia, por quanto pode ser amado o odioso que está em mim, agradeço-te, em meu nome e em nome de todos os homens. De fato, a tua potência infinita, a tua Sabedoria, a tua clemência humilharam a nossa arrogância e soberba humana: reduziu-nos àquilo que somos, isto é, a nada. Nada somos e retornaremos ao nada.
Este pensamento alegra o meu coração. Nisto contemplo a tua potência e sabedoria. Somente Tu és e serás eternamente aquilo que sempre foste. Os homens pecadores, em sua vaidade, avareza e soberba, querem herdar a terra e não usar de misericórdia para com o irmão! Logo retornarão à fumaça e ao nada. A potente mão de deus cortará as pernas do veloz cavalo de sua maldita avareza. Ele então cairá fortemente, não por terra, mas no fundo dos infernos.
Este maldito vício já colocou a cauda também nos claustros e nos conventos. Muitos, que deixaram no mundo haveres e comodidades, são tentados pela avareza na Vida Religiosa. Negam mesquinhamente um pouco de salada ou pão ao pobre e um copo de vinho ao sedento, que pedem por amor de Deus. Como é grosseiro, antes, nefasto, encontrar tal gênero de vícios nos servos de Deus. Quanto desagrada a Ele, e quanto é ferido o seu Coração! Ele, Senhor generosíssimo, não pode suportar que seus servos sejam tão avaros!
Portanto tu, meu reverendo Pai e filho em Jesus Crucificado, faze o oposto. Sê avaríssimo para com tua pessoa. Se te faltam quatro coisas, não procures nem mesmo uma. Deixa a Deus o cuidado com teu corpo. Ele inspirará a alguém de providenciar para ti. E nada mais te faltará. Assim o fez a tua mãe. Para as suas necessidades materiais e espirituais muitos foram inspirados até mesmo mais do que o necessário. Não acredito que ela tenha pedido aos seus superiores alguma coisa para si. Pelo contrário, muitas vezes recusava as suas ofertas dizendo: “Minha Madre, não preciso; dá a quem tem mais necessidade do que eu!”
Quero que tu, meu filho, sejas muito generoso com o teu próximo e que, para cada coisa pedida a ti, lhe dês quatro. Tua mãe entrou, ou melhor, Deus atraiu-a, somente por sua misericórdia, à contemplação de sua caridade infinitamente generosa. Esta tua mãe, olhando para o alto, contemplava as belezas maravilhosas criadas por este generosíssimo, amante Senhor: a beleza do céu palpitante de inumeráveis estrelas, de tantos cintilantes planetas, a claridade do sol, a formosura da lua. Considerava quantos, gostosos, doces frutos nasciam da terra, quantas folhas variadas, quantas rosas e lírios, quanta diversidade de ervas odoríferas úteis para nossa saúde corporal. Admirava os inumeráveis peixes do mar, a variedade dos pássaros do céu, dos quadrúpedes na selva e dos animais domésticos para uso do homem. Tudo isso e muito mais Deus criou para o homem, sem ser por ele pedido. Deu-nos grãos, vinho, óleo e outros. A sua generosíssima caridade providenciou tudo para estes nossos corpos, que em breve se dissolverão em pó.
 E o que pensas que Ele não tenha feito por esta nossa alma espiritual e eterna, criada à sua imagem e semelhança? Quantas variedades de beatitudes, quantas alegrias inimagináveis, quantas felicidades inestimáveis, quantos bens incompreensíveis preparou-nos na cidade eterna, a triunfal Jerusalém! “De ti se dizem coisas estupendas, cidade de Deus!” (S1 86,3). Ó cidade feliz, Jerusalém, tu és visão de paz, habitação dos bem-aventurados, gozo da glória eterna! Porque Deus criou tantos bens no céu e na terra, no mar e em todos os elementos, senão para demostrar a nós, mortais, o seu imenso amor, a sua infinita misericórdia? Pois Ele é todo generosidade, benignidade e cortesia. Dá não somente da plenitude de sua caridade, mas doa ainda a Si mesmo no Santíssimo Sacramento.
Ó meu generosíssimo Deus, Tu dás a Ti mesmo e todas as tuas coisas  a nós, e o homem pecador nega as mínimas coisas ao seu irmão! Destas considerações a tua mãe alcança a sua generosidade. O Senhor largamente dotou-a desta virtude desde a mais tenra idade. Ela goza muito mais em dar do que em receber: sente que esta graça aumenta nela cada dia mais.
Se queres conformar-te a Deus, sê generosíssimo. Deus não ama outro que não seja a si  mesmo e à sua imagem e semelhança. Tal doutrina, aquela serva do Senhor aprendeu-a, ou melhor, foi-lhe ensinada na escola da divina Sabedoria. Se não a compreendes, pede para compreendê-la. E descobrirás que em Deus cada coisa é amável e que fora dele nada o é, pois “somente Deus é bom” e por isso ninguém é amável a não ser somente Ele (cf. Mc 10,18). Deus é generosíssimo, rico de piedade e de amor. A sua misericórdia não tem fim. A Ele, o louvor e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Meu Reverendo Pai e filho diletíssimo, com a divina graça terminei e concluí estas salutares instruções, ou melhor, recordações. Quero que tu as receba e sigas com o mesmo amor com o qual dou-as a ti. Também te consolei, narrando-te, esboçada nestas recordações, a vida espiritual de tua dileta mãe. Não me pesou muito este trabalho. Espero, em meu Jesus Crucificado, que seja para ti muito útil e de consolação espiritual. Não falei-te em particular dos três votos de obediência, pobreza e castidade, porque quem observa estas instruções, estas recordações, é impossível que não seja pobre, obediente e casto.
Tu me pareces tão disposto a submeter-te voluntariamente ao jugo da santa obediência, que julgo supérfluo toda exortação. Todavia, para conforto de tua boa vontade, acrescentarei estas poucas palavras. Nenhum sacrifício é tão agradável a Deus do que este: dar a Ele a própria  vontade e liberdade, por meio da santa obediência. Pois está escrito: “quero mais a obediência que o sacrifício!” (Mt 9,13)[2].
Não te falo da santa pobreza, pois conheço-te. Tão desejoso és de possuir Cristo, que para gozar dele deixarias mil mundos.  Verdadeiramente bem-aventurado quem encontra esta pérola oriental da santa pobreza. Este adereço de inestimável valor foi, por graça de Deus, encontrado e comprado por tua mãe, para si mesma e para os outros. Mas, somente ela teve de pagar o preço com muitas fadigas, penas e prantos diante de Deus, e com várias tribulações da parte de frades, irmãs, autoridades leigas, padres e seculares. Em verdade, pode afirmar que custou-lhe mais a pobreza do que aos ricos seus tesouros. Ela desejou mais possuí-la do que o avaro deseja a aquisição de mais dinheiro. Meu caríssimo filho, tua pobreza seja esta: não querer outra coisa nesta vida que Jesus Crucificado. Nele encontrarás a verdadeira, a suma riqueza. Ó, quanto é pobre quem deseja somente Deus! Quanto é rico quem não tem outro a não ser Deus! 
Quanto à castidade, não lhe falei nem falo, porque sei bem que desta virtude és o exemplo entre todos os teus irmãos. Exatamente por isso, tua mãe te ama com amor especial e parece-lhe justo haver-te consolado com estas recordações. Como esta preciosa gema adorna e ilumina de angélico esplendor, de modo particular o frágil vaso de teu corpo, não deveria deixar de confiar-te os segredos das servas de Deus, para que em ti se repousem e conservem. “Faze tudo que te disse e viverás eternamente” (Lc 10,18). Amém.
Agradeço-te, Senhor, meu Deus onipotente, porque te dignaste ouvir as orações e súplicas desta alma bendita. Imploro à tua divina Majestade a fim de que cumpra e assegure o seu desejo do bem.


[1] Para não mostrar seus êxtases.
[2] Mateus, no lugar de obediência, traz misericórdia.

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